Deixa um pouco de poeira a pairar sobre o chão, quando passa, mesmo subtilmente.Do seu lado esquerdo estão as margaridas, as gerberas coloridas e as violetas tristes, as suas preferidas. Do lado direito há jacintos, açafrões amarelos, minúsculas bagas vermelhas, jarros e uma pequena quantidade de cravos vermelhos. Depois há papoilas selvagens espalhadas pelo meio, aqui e acolá há abelhas divertidas em volta das flores e uma ou outra borboleta. O sol bate forte mas ela caminha sempre sem se importar com a sua persistência. Sabe os caminhos do jardim de cor e o nome de cada flor na ponta da língua. Senta-se num banco já conhecido e põe-se a admirar imensamente os "gestos" do jardim. Ouve os pássaros a chilrear animados, as folhas e as flores a balancear com o vento. O vento, que também lhe afagava a cara e os cabelos descontraídamente, já nada tinha para lhe levar. Já dela lhe levara tudo. Estava vazia, e estava inundada de cores das flores e de sons dos pássaros. Caminhou sem rumo no seu jardim, e deparou-se com uma pobre rosa branca caída ao chão. Inclinou-se para a apanhar e pensou que a diferença entre ela e aquela flor seria apenas corpórea. Cheirou-a e fechou os olhos inspirando profundamente. Cheirava a rosa solitária.Pô-la entre os seus caracóis e viu-se no reflexo no pequeno lago ao fundo do jardim. Era bonita e tinha uns olhos intensos. Retirou a delicada rosa dos seus cabelos, deixando cair pétala a pétala da flor, enquanto caminhava de novo. Passou o corredor das violetas e chegou ao seu banco. Sentou-se e esperou. Esperou que a ausência troca-se com o ausente e que este seguisse as suas pétalas, os seus bocadinhos de si mesma, os juntasse e os trouxesse até ela, fazendo valer a pena a melancolia que partilhava com o seu jardim. Esperou no seu banco, olhando longamente o lugar vazio ao seu lado ocupado somente pelo vento. E na poeira do chão, viu de relance um rasto de esperança, varrida pelo tempo.
2 de junho de 2008
O jardim
Deixa um pouco de poeira a pairar sobre o chão, quando passa, mesmo subtilmente.Do seu lado esquerdo estão as margaridas, as gerberas coloridas e as violetas tristes, as suas preferidas. Do lado direito há jacintos, açafrões amarelos, minúsculas bagas vermelhas, jarros e uma pequena quantidade de cravos vermelhos. Depois há papoilas selvagens espalhadas pelo meio, aqui e acolá há abelhas divertidas em volta das flores e uma ou outra borboleta. O sol bate forte mas ela caminha sempre sem se importar com a sua persistência. Sabe os caminhos do jardim de cor e o nome de cada flor na ponta da língua. Senta-se num banco já conhecido e põe-se a admirar imensamente os "gestos" do jardim. Ouve os pássaros a chilrear animados, as folhas e as flores a balancear com o vento. O vento, que também lhe afagava a cara e os cabelos descontraídamente, já nada tinha para lhe levar. Já dela lhe levara tudo. Estava vazia, e estava inundada de cores das flores e de sons dos pássaros. Caminhou sem rumo no seu jardim, e deparou-se com uma pobre rosa branca caída ao chão. Inclinou-se para a apanhar e pensou que a diferença entre ela e aquela flor seria apenas corpórea. Cheirou-a e fechou os olhos inspirando profundamente. Cheirava a rosa solitária.Pô-la entre os seus caracóis e viu-se no reflexo no pequeno lago ao fundo do jardim. Era bonita e tinha uns olhos intensos. Retirou a delicada rosa dos seus cabelos, deixando cair pétala a pétala da flor, enquanto caminhava de novo. Passou o corredor das violetas e chegou ao seu banco. Sentou-se e esperou. Esperou que a ausência troca-se com o ausente e que este seguisse as suas pétalas, os seus bocadinhos de si mesma, os juntasse e os trouxesse até ela, fazendo valer a pena a melancolia que partilhava com o seu jardim. Esperou no seu banco, olhando longamente o lugar vazio ao seu lado ocupado somente pelo vento. E na poeira do chão, viu de relance um rasto de esperança, varrida pelo tempo.
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1 comentário:
Bela prosa poética.
Temos em comum o vento e... o tempo.
Obrigado
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