Acabei agora de me sentar numa rocha de entre tantas que estão no fundo desta extensa praia. É uma tarde quase normal de Verão, tirando o facto de ser diferente para mim. O sol já vai baixando sobre o mar como se fosse submergir a qualquer momento. Também eu queria desaparecer assim de repente, de vez em quando. A maré está alta, há gaivotas por todo o lado, e as ondas soltam-se pelo longo areal, cristalinas, assim como as minhas palavras. Sinto-me observada por um senhor de meia-idade, situado um pouco acima do local onde me encontro, à esquerda. Olha-me como se quisesse muito saber o que escrevo. Há também um grupo de crianças risonhas que se encontram a construir uma estrutura de areia e conchas que ainda não consegui identificar.
Hoje sonhei com o meu avô materno. Sempre foi um avô exemplar, recordei-me de todas as memórias que consigo reter. Lembro por exemplo, de forma muito calorosa e familiar, um avô que me levou infinitas vezes, para o campo, dentro de um carrinho de mão velho, pelas estradas poeirentas que levavam ao monte onde os meus avós trabalharam durante muitos anos. Outras vezes era a minha avó que nos levava, a mim ou ao meu irmão. Lembro-me das minhas sonoras risadas ao ver as borboletas poisarem sobre as flores do caminho. Brinquei horas sem fim, tomei banhos no tanque perto da casa, aprendi a tratar da horta com o meu avô, a gostar das flores, dos frutos, das verduras. Graças a ele, quis ser jardineira durante largos anos. Tinha 5, 6, 7 anos. Quando quero, sinto um falso sabor a pão barrado com manteiga que todos comíamos ao lanche. Era o que nos podia ser dado. Era a inocência. Mas eu gostava tanto, mas tanto, daquele pão com manteiga. Para dizer a verdade, gostava de me sentar no meio das margaridas e tratar demoradamente dessa tarefa. Muitas tardes se passaram assim na minha infância. É por isso que nunca gostei muito de praia. Mas aqui estou. No contraste do natural e saboroso estar do campo. Soltei agora uma gargalhada só pela ironia. A escrever sobre o campo, em frente ao mar. O meu espectador curioso voltou a observar-me com os olhos bem abertos.
Apesar de não ter podido aprender a ler e a escrever, o meu avô foi um homem respeitável e trabalhador. Contava-me histórias e cantava-me canções.
Eis o meu sonho. Eu encontrava-me em casa, já com 12 ou 13 anos, e velava pelo meu avô que estava, como sempre, sentado na sua poltrona dourada. Já tinha sofrido o segundo AVC e não se mexia muito, falava alguma coisa, pouca; andava duas ou três vezes em volta da mesa da cozinha e voltava a sentar-se. Tinha tanto carinho por o meu avô, que rezava por ele todos os dias. Na altura em que a minha fé era maior. De repente, no meu sonho, o meu avô levantou-se com uma misteriosa energia como se estivesse pronto para me levar no antigo carrinho de mão; abraçou-me com muita força, e disse-me que gostava imenso de mim e começaram a fluir-lhe frases carinhosas na perfeição. Eu retribuia o abraço, chorava ruidosamente e ria ao mesmo tempo como se fosse muito real, embarcada subitamenete numa felicidade bonita e vigorosa.
Acordei de repente a chorar muito, mas dessa vez com tristeza e saudade imensa. Acho que chorei tudo o que não chorei depois da sua morte. Não consegui derramar uma lágrima. É sempre assim. Quando quero muito e preciso de chorar depois de um triste acontecimento, não choro. Porque não consigo, nem controlo.
As ondas, antes silenciosas e sublimes, parecem-me agora violentas e demasiado soltas, explodindo contra as rochas. Parece o comportamento do meu coração que bate com força e emoção. O sol já quase desapareceu, e as pessoas já foram quase todas embora para a segurança das suas casas. Afinal, onde é realmente a nossa casa?
O meu avô faleceu poucos dias depois do segundo AVC. Não o vi durante esses dias e também não o quis ver mais. Não fui ao funeral, porém, fui às missas que a minha avó mandou fazer. Coisas desnecessárias. O que é essencial não é bem isso, nem tão pouco as roupas do luto. Quase sempre me sento na sua poltrona, aconchego-me tranquilamente, adormeço, e sonho.
Agora vou tomar um banho rápido, e pensar que estou a mergulhar nua e pequenina na água fresca do tanque do monte da Glória, vendo o meu avô a regar a horta feliz e realizado. Como sempre o lembrarei.
8-07-08
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