Eles moravam no mesmo prédio. Ele mudou-se primeiro, ela chegou um pouco depois e morava no 2º andar direito. Ele morava no 3º direito. O prédio ficava numa rua na Amadora, uma rua escura e suja; embora o bairro tivesse a sua "classe". O nome dele era André. O nome dela era Alice. Viam-se bastantes vezes, entre o entrar e sair do prédio, entre o ir à rua fumar um cigarro ou apanhar ar, mas não andavam na mesma escola nem no mesmo ano. Não falavam mais que "bom dia, "boa tarde".
Ele sabia tudo sobre ela; ela não aparentava interessar-se por conhecê-lo. O André fazia o seu olhar de desconfiado e olhava-a com força com esperança de o olhar ser retribuído. Chegou a deixar cair as chaves de casa ao subir as escadas à frente dela, e como contava na escola, irritado, ao Pedro: "a senhora nem se dignou a olhar, acreditas?".
Um dia, quero dizer, uma tarde descobriu o segredo por detrás da máscara de menina de nariz empinado. Foi numa tarde completamente desinteressante e pacífica. Ela estava sentada no vão da escada, a chorar baixinho, o André passou e sorriu em silêncio das escadas do prédio, fingindo não ter visto nada. Depois, parou lá em cima e escutou com cara séria. "Vou lá? não vou. Ou vou?"
Entrou em casa, deitou-se no sofá e ligou a televisão. A série dos Simpsons a passar, os seus olhos a verem os bonecos amarelos e a seguirem as figuras com desinteresse e sem a mínima atenção.
Isto repetiu-se duas ou três vezes, ele não se lembra.
Naquela noite, ela estava sentada, mais uma vez enroscada no seu canto debaixo do vão das escadas, com os fones. O nome dela ecoava na cabeça dele. "O vão das escadas, o sitío das memórias? mas porque chora, afinal?" Foi então que não conseguiu mais fixar as séries da Fox e desceu. Quase como um gesto inconsciente: desceu.
André parou em pé à frente dela. Pensou que gostaria de abraçá-la, e ela era tão bonita. Tão bonita mesmo. Alice, admirada olha-o com desconfiança no meio de soluços. Pela primeira vez, ele baixa-se e toca-lhe com a mão na face e nos cabelos muito, muito devagar. Ela chora mais e cora, envergonhada.
- Sou o André, o teu vizinho de cima como sabes.
Mais uma vez no meio de soluços, balbucia:
-Olá, sou a A...
-Eu sei quem és - corta-lhe as palavras - posso ficar aqui contigo?
- Podes - e esboça um sorriso meio triste, mas precioso.
*
Gosto tanto de contar histórias verídicas.
(Eu sei, tenho andado desaparecida mas é por uma causa importante)
Ele sabia tudo sobre ela; ela não aparentava interessar-se por conhecê-lo. O André fazia o seu olhar de desconfiado e olhava-a com força com esperança de o olhar ser retribuído. Chegou a deixar cair as chaves de casa ao subir as escadas à frente dela, e como contava na escola, irritado, ao Pedro: "a senhora nem se dignou a olhar, acreditas?".
Um dia, quero dizer, uma tarde descobriu o segredo por detrás da máscara de menina de nariz empinado. Foi numa tarde completamente desinteressante e pacífica. Ela estava sentada no vão da escada, a chorar baixinho, o André passou e sorriu em silêncio das escadas do prédio, fingindo não ter visto nada. Depois, parou lá em cima e escutou com cara séria. "Vou lá? não vou. Ou vou?"
Entrou em casa, deitou-se no sofá e ligou a televisão. A série dos Simpsons a passar, os seus olhos a verem os bonecos amarelos e a seguirem as figuras com desinteresse e sem a mínima atenção.
Isto repetiu-se duas ou três vezes, ele não se lembra.
Naquela noite, ela estava sentada, mais uma vez enroscada no seu canto debaixo do vão das escadas, com os fones. O nome dela ecoava na cabeça dele. "O vão das escadas, o sitío das memórias? mas porque chora, afinal?" Foi então que não conseguiu mais fixar as séries da Fox e desceu. Quase como um gesto inconsciente: desceu.
André parou em pé à frente dela. Pensou que gostaria de abraçá-la, e ela era tão bonita. Tão bonita mesmo. Alice, admirada olha-o com desconfiança no meio de soluços. Pela primeira vez, ele baixa-se e toca-lhe com a mão na face e nos cabelos muito, muito devagar. Ela chora mais e cora, envergonhada.
- Sou o André, o teu vizinho de cima como sabes.
Mais uma vez no meio de soluços, balbucia:
-Olá, sou a A...
-Eu sei quem és - corta-lhe as palavras - posso ficar aqui contigo?
- Podes - e esboça um sorriso meio triste, mas precioso.
*
Gosto tanto de contar histórias verídicas.
(Eu sei, tenho andado desaparecida mas é por uma causa importante)
1 comentário:
Pena não poderes escrever mais vezes, adoro ler as tuas descrições. :D
Continua
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