24 de dezembro de 2008

Invaluable

Pelo vidro da mercearia vejo um vulto escuro a espreitar pelo velho portão.
-"Tia, vou lá acima."
Começo a subir a inclinada ladeira e enquanto subo sinto os olhos das velhas sobre mim, pelas frinchas das portas ou das janelas. De vez em quando olho-as de volta para intimidar e fazê-las recolher. Quando chego à beira do portão já não está ninguém. Puxo o cordel que abre o portão, feito pelo meu avô. Passo o quintal que outrora via cheio de flores (mesmo cheio) e apenas vejo umas 6 ou 7 na entrada. A árvore das bolinhas verdes para as fisgas já não dá bolinhas. O rapaz cresceu e agora trabalha no café dos pais, e nós já não somos crianças. Subo as escadas e entro em casa. A velhota assoma-se e:
"Quem é?"
como se não soubesse que era eu. É a minha avó que fala. Abraço-a.
"Como estás, avó?"
"Vai-se indo..."
Sentamo-nos as duas em silêncio a olhar a televisão apagada e a aquecer os pés no pequeno aquecedor.
A minha avó pede-me para ir á drogaria comprar envelopes e trigo para as galinhas. Enquanto subo mais um pouco a ladeira as lágrimas vêm-me aos olhos e enterneço-me.
Peço ao Sr. Manel a conta e ele faz as contas num papel como a minha tia. Conta os números em alto e fala sempre em cada moeda.
Quando chego,
"Se estivesse cá mais vezes ía sempre avó."
Obriga-me a ficar com o troco da encomenda enquanto eu recuso, e pergunta-me se não aceito por ser pouco. Nessas vezes quase choro, como lhe hei-de explicar que isso não me interessa? Só queria que ela estivesse ali sempre, que assistisse um dia ao meu casamento e lhe levasse os bisnetos a casa. Mas não sei se isso acontecerá.
"Olha vamos aquecer água para beber com isto." (mostra-me uma caixa de cappucino soluvél na água).
"Está bem, deixa estar que eu faço".
Eu e o meu irmão somos os únicos que a tratamos por "tu". Não faz mal.
A minha avó põe a mesa com um pouco de queijo, pão e bolos que lhe dão.
"São muito doces para mim" - diz.
"Doces é que é bom, estás muito magra avó."
Comemos em silêncio. A minha avó rói algo que não existe. A minha mãe zanga-se sempre com ela por causa disso. Falamos da escola e do tempo. De vez em quando a minha avó ri e eu enterneço-me e riu também. Sento-me no cadeirão do meu avô, o qual ninguém resiste a sentar-se, e encolho-me.
Ficamos assim um bocado, desco até à mercearia da minha tia, volto de novo para cima.
Um vulto escuro assoma-se ao portão outra vez.
É a minha avó.

2 comentários:

N R disse...

Està muito bom, é por histórias destas que eu digo que és muito melhor que eu. :D
Envia também esta, podes levar 2, vais ganhar.

Unknown disse...

Vim aqui parar trazido por um crocodilo...e fiquei fascinado!! o blog é muito bom...bons textos, boa escrita...Os links no blog de extrema qualidade...despertou-me a atenção de imediato...Não te importas que venha"fazer sala" mais vezes pois não? importas-te? paciência..eu vou voltar na mesma...