28 de dezembro de 2008

Suicídio

As mãos estão metidas dentro dos bolsos. Está frio. Passou pelo parque lentamente a ver as crianças. Não se lembra de ser criança, não se lembra de brincar nem com quem o fazia, não se lembra dos brinquedos mas sabe que foi uma criança irrequieta e sorridente como a mãe lhe dizia. Esqueceu sem propósito. No céu as nuvens pareciam algodão doce branco e o céu era de um azul tão pacífico que consegue ficar ainda mas calmo do que está. O céu é da cor da sua alma, uma cor bela e majestosa, mas ele não sabe e não se esforça por descobri-la porque há demasiadas nuvens cinzentas a tapar. A sua caminhada está a chegar ao fim, ao longe avista o seu ponto de chegada. É Outono. As folhas estão pelo chão, não há varredores de rua por perto.
Aqui há beleza, há vida por todo o lado, há esperança em cada passo de cada criança, há céu que faz sorrir, há pares de namorados a sussurrar ao ouvido, há pássaros à procura de galhos para assegurar os seus ninhos, há vento que toca ao de leve na cara como um beijo, há velhotas de lábios vermelho sangue a passear de braços dados, há rapazes sozinhos, há raparigas sozinhas, há corredores de fones nos ouvidos, há fotógrafos, há vida: simples vida.
Os homens não choram, como lhe costumam dizer, mas ele agora chora. A morte parece-lhe mais distante. Mas não pode deixar para trás uma decisão tão importante assim, pois sabe que vai assombrar-lhe a alma como uma trovoada assim que voltar para casa. Anda mais um pouco e senta-se à sobre a ponte. Vê que a vida continua no jardim que deixou para trás. Apoia as mãos na pedra cinzenta, olha o horizonte ao longe, e vê que ali a água quase secou, mas em breve encherá mais lá em baixo. Volta-se e continua a ver a vida no jardim.
Ainda não chegou a sua hora. As mãos recolhem para dentro dos bolsos e caminha de volta pelo seu caminho que agora lhe parece mais longo. Não consegue enxotar o sentimento que o assaltou. Lembra-se de uma vez que corria pela casa dos pais e caíu nas escadas da entrada. Era crinça, e chorava muito.

Onde há vida também há morte. A sobreposição de uma sobre outra está no fundo de nós, mas também está no fundo das outras vidas para além da nossa. Basta ver com o coração.

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