12 de janeiro de 2009
This trumpet in my head
A marca do batôn no copo reluzente continuava a ser pressionada suavemente. O vinho francês estava a chegar ao fim assim como a sua paciência. Já não ouvia as palavras tolas do seu companheiro, que não sabia falar mais que banalidades de futebol e política. Só tinha vontade de lhe dizer: "as mulheres não gostam de falar dessas coisas, olha para mim, diz-me que me queres beijar esta noite!". Mas não lhe pareceu o sítio indicado para desatar o nó pois sabia que se começasse a falar aquilo não ía acabar bem.
you say you can't stand me when I'm quiet, so I shot you in my silence
Havia uma cadeira vazia no centro do restaurante, as luzes incidiam de forma diferente sobre esse recanto. Apesar de tonta, e de estar quase à beira de um ataque de nervos, fitou os patéticos talheres cheios de pormenores e, relutante, enfiou a comida na boca, com a mais pequena das delicadezas.
"Estás a ouvir? Ou não nunca viste esse anúncio?" A voz dele subiu de tom.
"Vi, vi. Acho interessante, muito bem feito."
«Preciso de sair daqui», pensou. Nesse momento entrou um rapaz segurando um trompete de cor dourada, brilhante. Alojou-se na cadeira vazia, e, calmamente, começou a tocar.
O seu som saiu puro e tranquilo. Quando terminou, extasiada, fitou os olhos dele.
"Prestas mais atenção ao raio de um músico do que ao que te digo"
Era o que precisava de ouvir. Esboçou um sorriso devagar, levantou-se da mesma forma, saiu.
I can't get that trumpet out of my head
I woke up and I can't get that trumpet out of my head
Música: Lykke Li
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3 comentários:
rita redshoes, pela subtileza
Gostei do texto.
Acho que há por aí muitos trompetes. Já ninguém presta atenção a nada, nem ao silêncio.
Às vezes os homens não vêem o óbvio...
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