Pergunta-lhe se o dinheiro lhe chega.
"Chega perfeitamente assim mãe" - olha o céu cinzento e feio e pensa como mente bem. Não é que se orgulhe disso, mas sabe-o. Sempre que ía ao atelier de pintura em Santarém, dizia que ía às compras com as amigas da escola. Em miúda, os pais não entendiam porque é que ela não podia ser advogada ou enfermeira. Mas a sua arte não satisfazia essas áreas, para grande infelicidade dos pais na altura. Perdida nos pensamentos, nem se apercebe que a mãe sai.
Maria encontra-se sentada na varanda protegida do antigo prédio para onde os seus pais se mudaram depois de ela e o irmão sairem de casa. Em Santarém chove, está abafado e as ruas estão sujas, cheias de marcas humanas. Do prédio vê os grafitis, o lixo no chão, as beatas sobre a calçada, as pessoas com guarda-chuvas diferentes, atarefadas. Abotoou o casaco e apoiou a tela sobre o cavalete. Pensou na entrevista, e relembrou todas as suas palavras dirigidas ao gerente, um discurso tão calculado e precioso como os seus quadros. Há horas estava a contar ao pai como fora, descansando-o. E este, carinhosamente, já lhe chamava ilustradora francesa. Na verdade, não sabia se conseguiria ser aceite, mas falou ao pai com toda a certeza que sim; e mesmo que não conseguisse, tentaria incansávelmente outro lugar. Agora parou de chover, e numa tentativa de se lançar sobre a tela, fecha os olhos e vê o rosto de Pierre. Repete o seu nome baixinho, e quando se apercebe do seu segredo sorri maliciosa, e começa finalmente a desenhar a janela do prédio da frente.
"Maria! Maria!" - o pequeno sobrinho acena-lhe na rua e chama-a. Ela: olhar vago perdido no nada. Só olhou para baixo ao terceiro gritinho. Sorri, e espera. A primeira coisa que o pequeno diz quando a abraça é: "tu és estranha tia", daquele jeito ingénuo e suave que as crianças falam. E depois, corre para o escritorio ansioso por jogar com o avô.
*
França, quase França. O avião aterra impaciente, como ela, em terra francesa. Olha tudo como se fosse pela primeira vez, da janela do táxi. Sente-se de volta ao seu cantinho. Cartas, só de publicidade. Deixou-se ficar sentada sobre a cama, a pensar nas coisas que tinha para fazer nos próximos dias. Porém, não resiste e deixasse dominar pelo cansaço, adormecendo.
Nas semanas que se seguiram acordava sempre espectante, verificava o correio e o telemóvel constantemente e bebia o café matinal sem açucar. Finalmente, numa dessas frustrantes manhãs, segura na mão uma carta da agência. Teme o que está escrito lá dentro, mas não é mulher de grandes hesitações ou receios. A carta não tinha muitas palavras, as suficientes para dizer que fora aceite e começaria a trabalhar dois dias depois. Não poderia estar mais feliz. Era dos momentos em que se sentia mais grata por estar em França.
"Mereçe comemoração" - pensou.
2 comentários:
Está interessante. Mas é como dizes, até Março.
Arredio por causa da gripe, mas nem por isso ausente...Tu sabes contar histórias! E com suspense! A história está muito boa e aguardo o desenvolvimento...
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