16 de fevereiro de 2009

L'artiste de France (Parte V)

Agarra com entusiasmo no telemóvel e telefona a Sophie que a felicita em francês de tal modo satisfeita que parecia ter acabado de assegurar ela própria o seu emprego. Maria veste-se rapidamente e apanha um táxi junto ao jardim do seu pequeno comércio de quadros e dirige-se a um restaurante fino, perto da casa de Sophie. Observa a amiga com atenção: lábios cor de pêssego, faces rosadas, pele branca, madeixas de cabelo a contornar a face, sorriso cheio de vida. Tinha um doce falar e sabia dizer as palavras certas nos momentos certos sem banalizar o que dizia, interessava-se e esforçava-se pelos problemas dos outros sem pedir algo em troca e sem jogar sujo com essas atitudes quando havia discussões. Era isso que a distinguia das outras raparigas francesas que conhecera até agora. Não era sobretudo uma rapariga fútil. E tinha outra particularidade curiosa e divertida, por vezes citava frases de escritores que não lembravam a ninguém, ou cantava músicas que mais ninguém conhecia. Era a única que sabia da história de Pierre, e ria-se. Dizia constantemente: “Marie ele vai voltar a procurar-te, acredita em mim." E tinha razão.
*
O seu trabalho consiste em fazer ilustrações consoante o tema que cada jornalista lhe entrega. No princípio acha o chefe exigente demais com os prazos da entrega das pinturas, mas depois percebe que nunca lhe fora dado um limite de elaboração dos seus trabalhos, sem ser na escola. Estava habituada a fazer tudo com o tempo que lhe apetecia, e agora está a aprender a gerir melhor o tempo. Passadas semanas já todos lhe gabam o trabalho, já se sente mais segura e trabalha como uma verdadeira profissional.
A vida corria entre o trabalho; o pub do costume com os amigos do costume (de vez em quando conhecia alguém novo no trabalho ou nas noites de festa); entre as idas a Portugal e entre o pensar constante no francês que conhecera há meses. Mesmo assim já quase se esquecia dele. Mas o “quase” está em quase tudo nas nossas vidas. Um Domingo, já ao cair da tarde, enquanto passava a ferro; ouvia o seu indispensável best of dos REM, pensava no formato do quadro que tinha para fazer, prenda de anos da Samantha - a mais recente colega do trabalho - ele apareceu. Quando ouviu bater à porta, pensou que fosse alguém do piso de cima a pedir para baixar o volume da música ou a pizza que tinha encomendado há mais de vinte minutos. Posto isto, agarrou na carteira e abriu a porta distraidamente. A sua cara expressou tudo menos distracção, logo que viu quem estava do outro lado da porta. Pierre está à sua frente com o ar mais descontraído do mundo.
“Então, vais deixar-me entrar?” – Estende-lhe uma mão, antes escondida atrás das costas, com chocolates.
Ainda em recuperação do choque, Maria recua e deixa-o entrar. Falam sobre o desencontro de meses atrás, e tudo começa a encaixar. Ela explica que foi para Portugal nos dias seguintes ao desencontro e pergunta-lhe porque demorou tanto tempo a voltar a procurá-la.
“Beaucoup de travail, beaucoup de travail…” – Desculpa-se. Debruça-se sobre a face dela e pousa lá um beijo. A porta volta a pedir para ser aberta, desta vez é o rapaz da Pizza Hut. Pierre fica lá esta noite e muitas outras. E, com o sublime passar do tempo, o espaço de Marie para a ser também o dele, sem ela se aperceber. Quando se gosta assim de alguém, entregasse tudo aos poucos e a primeira coisa a deixar de nos pertencer é o coração, que curiosamente também é a última ser devolvida quando algo corre mal. E sim, há sempre algo que corre mal.

1 comentário:

N R disse...

Mas olha que neste caso até está a correr bem.