25 de fevereiro de 2009

L'artiste de France (Parte VI)

«Faz hoje um ano que estamos juntos. Ainda não conseguimos conciliar o trabalho de Pierre para ir aí, mãe. Nos próximos dois meses, prometo que farei os possíveis para levá-lo, e então poderão conhecê-lo. Sinceramente não sei se vais gostar dele. O feitio é difícil, e não é toda a gente que consegue lidar com o tipo de pessoa que ele é. Mas é assim que gosto. Às vezes, quando discutimos, parece tornar-se alguém que nunca conheci numa questão de segundos, fica fora de si, parece alguém arrojado e fala de forma irreconhecível para mim. Mas não te quero preocupar, estou só a explicar um pouco da sua forma de ser. Diz ao pai que em breve lhe envio as fotografias dos quadros que fiz para o escritório novo. Quando o mano tiver tempo, diz para te ensinar a entrar no MSN e falamos melhor. Da tua,
Maria »

Sai para a rua com o seu melhor vestido de Verão. Entre passos acelerados canta “time goes by so slowly”. O caminho até ao teatro faz-se bem a ouvir Madonna. Sophie, Anne e Bruce já estavam à porta. Perguntam-lhe porque não veio Pierre, ao que ela responde desanimadamente que teve que ir a Amesterdão tratar de assuntos do trabalho. Não entendia muito bem que relação tinha o seu trabalho com as idas ao estrangeiro. Segundo o que ele dizia, existiam casos especiais de pacientes que tinha que acompanhar nas viagens, para a segurança dos mesmos. Mas na verdade, os casos deviam ser muitos, pois as suas saídas eram constantes. Já sabia alguns dos “segredos” de Pierre, a sua personalidade, as suas atitudes, os seus sorrisos, os seus medos… mas ele não a deixava saber muito sobre o seu trabalho.
“Deve ser uma espécie de psicólogo especial, essas pessoas têm que guardar bem os segredos dos pacientes consoante as suas carências, e também não deve andar sempre a falar deles Marie, para bem da sua sanidade mental.” – Disse Sophie.
E acabavam sempre a rir da situação.
Relativamente à família do francês, só tinha conhecido a mãe. Nunca lhe falara do pai, e como ela sabia que isso era uma susceptibilidade, não perguntava nada sobre o assunto.

*

Certa manhã, recebe um telefonema de Pierre com um tom de voz ofegante, a dizer que vá ter com ele depois de almoço porque surgiu um imprevisto urgente e precisa de ir Barcelona. Já habituada a ser deixada para segundo plano, diz um sim muito sumido e desliga o telefone de seguida. Porém, pelas 14:30 está na pastelaria a despedir-se do seu “fugitivo”. Ele olha-a com ternura e diz-lhe ao ouvido o gasto e já vago pedido de desculpas. Mais uma vez, ela comove-se e pede-lhe que não demore na viagem. Diz-lhe que estará à sua espera no dia seguinte e que passe pelo local de trabalho se chegar a tempo do almoço. Antes de partir, Pierre entrega-lhe um embrulho preto, pequenino. “Deve ser entregue com urgência antes das 16h nesta agência que está assinalada na parte de cima do invólucro, faz-me esse favor mon amour, estou sem tempo. Adeus, Marie”

Aquele adeus causou-lhe uma certa amargura. Chamou um táxi e no caminho pensou o que teria a pequena caixa dentro. «Quando ele voltar, pergunto-lhe». A agência ocupava um prédio inteiro, sete andares. Deveria ser entregue no 4º andar. Assim que cumpriu a sua tarefa telefonou a Samantha. Precisava de informações sobre o novo projecto do jornal, para se entreter o resto do dia a trabalhar.

Vai devagarinho, mas vai. E já faltou mais.

1 comentário:

Catarina disse...

Bem rapariga nao te fartas de escrever "L'artiste de France" (:
Gostei do que acabei de ler.