Feliz dia a todos os papás.
Entra devagarinho arrastando a porta do ginásio com a familiaridade de quem entra na própria casa. Senta-se nos bancos de madeira compridos e fixa-a como plano de fundo. Ela está a fazer o seu exercício de concentração do costume, olhando-se no espelho com atenção. Finalmente levanta a perna direita. Avança com o pé em frente como quem salta algo por cima. Assenta-o com cuidado no chão deslizante, e vai escorregando, escorregando...
Ele pensa como a conhece bem, conhece aquele olhar de profissional, aquelas pernas de bailarina, aquelas mãos graciosas, aquele cabelo desajeitadamente apanhado... e orgulha-se muito. Sorri. Ela continua sem o ver. Depois de alongar, levanta-se e avança para a cadeira ao lado do gigantesco espelho, e carrega no botão play do rádio. Só quando se volta é que vê o "intruso" no ginásio. Diz-lhe olá e estende-lhe a mão. Sem hesitar, ele avança e segura-lhe a mão com carinho. Sabe exactamente onde a música vai começar e como se fosse o timing certo de um beijo, o seu corpo inicia a dança, e o dela também.
o amor é um passo
compulsivo
de uma dança sem
nexo
como este poema
sem sentido
pode ser uma
emoção sem
reflexo
como
o de um espelho
de um ginásio
vermelho
pode ser
o amor
1 comentário:
Gostei tanto!
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