8 de março de 2009

L'artiste de France (Parte VII)

Era a notícia principal do Jornal da Noite. “Centro de Comunicação Social de Negócios Estrangeiros explode. A causa é ainda desconhecida, mas receia-se que tenha sido uma bomba. A detonação ocorreu exactamente às 16:15h. Mais de 200 pessoas morreram e pelo menos 150 encontram-se hospitalizadas nos Cuidados Intensivos. As unidades de salvamento encontram-se no local e até agora tudo leva a querer que as buscas se prolonguem pela noite fora. Paris está chocada com esta possibilidade de atentado (…).”

Durante a tarde Pierre teve o telemóvel desligado. Talvez nunca mais o voltasse a ligar. Marie não conseguia chorar, olhava a televisão com raiva. A notícia estava em todos os canais. A mãe ligou-lhe aflita a perguntar se ela estava bem, já sabia do ocorrido. Depois de um breve encaixe de acontecimentos, Maria percebeu tudo. Pierre não era quem ela pensava! E, a verdade dura e fria, apontava-a como culpada. Devia ter satisfeito a sua própria curiosidade, devia ter aberto o raio do embrulho. Não queria acreditar no que tinha feito. Por fim as lágrimas caíram umas atrás das outras, até de manhã. Vagueou toda a noite pela cidade.

De manhã, a única possibilidade que via era entregar-se. Passou pelas bancas dos jornais e confirmava-se o atentado bombista. Paris pareceu-lhe uma cidade irrespirável, não suportava o passar das horas sem saber o que fazer. Não havia como encontrar Pierre, nunca mais saberia dele. Não aguentaria viver com o peso de mais de quatrocentas pessoas. Mortas. E não suportaria a vida na prisão, a desilusão dos pais e amigos. Sabia que devia ter percebido os sinais que o francês mais perigoso de Paris lhe entregara aos poucos. Agora, não havia como fugir. Nada servia de consolo para o que sucedera. Não atendeu os telefonemas do chefe, mas à hora combinada com o suposto homem da sua vida, estava há porta do trabalho. Sabia que não iria aparecer ninguém, mas foi na mesma. Depois de uma meia hora insuportável, dirigiu-se para casa.
*
Quando percebeu que não conseguia estar muito tempo num local, passou-se. Os borrões de tinta coloridos sufocavam-na. A Carla Bruni fazia-se ouvir no seu rádio. Estava de pé, muito direita, iluminada pelos radiosos coriscos do Sol, em frente à sua parede ainda branca. Pegou num lápis número 3 e escreveu:

“Liguem os holofotes da cidade. Aqui dorme a culpada de tantas mortes. Aqui dorme a que pensou que o tempo corria demasiado devagar. Aqui dorme a que acreditou num amor de história de cordel. “

Escreveu ainda uma carta a Sophie e outra à mãe a explicar tudo. Quando passou pela última vez pelo jardim Square Laurent Prache colocou as cartas no marco do correio. Nada mais importava.
*
Os movimentos da água estonteavam qualquer um que estivesse uma hora a olhar o rio. A água nunca pára. Nunca. O vento soprou fraco ao fim da tarde, ao contrário do que se esperava. Uma brisa leve trazia uma estranha calma. Os pássaros voavam em grupos, outros poisavam nas margens. As poucas pessoas que passavam tiravam fotografias, alegres e sorridentes. A cidade parecia-lhe bonita dali. Fechou os olhos durante algum tempo e gostou do que viu. Mas o que viu, essa vida que já não era sua, pareceu-lhe longínqua e inalcançável. Nunca seria igual.

Ao entardecer, atirou-se da ponte que atravessava o rio Sena. Não sabia nadar.

Fim.

1 comentário:

N R disse...

Prontinho para ganhar o prémio. :D