27 de abril de 2009

Gadgets

Lembrar-se dele não era como lembrar uma recordação qualquer. Por vezes sentava-se no peitoril da janela e pensava que não era tão bom como sentar-se no banco junto à janela da casa da praia, que dava para esticar as pernas e levar com uma agradável brisa na cara e nos cabelos. Lembrar-se dele não era uma mera recordação boa como essa. Nem era como quando se lembrava da avó a contar-lhe histórias sem pés nem cabeça que a faziam rir e sonhar, ou como quando passava as tardes com a Susana a ver filmes até não poder mais. Não é que não sentisse saudades dessas coisas todas, mas todas elas se enfiavam ou na gaveta da família ou dos melhores amigos ou das férias grandes ou... Não lhe agradava a ideia de criar uma gaveta para o amor nas suas memórias. Chegava sempre há conclusão de que o amor está em todas as gavetas, de certa forma. Mas ele que já era quase um desconhecido representava uma mistura estranha, como os chás indianos. Não se lembra da cor dos seus olhos nem da sua cor preferida. Lembra-se da paisagem da janela do seu quarto e da colcha da cama. Saboreia agora o gosto do insenso que se apoderava de todo o compartimento assim que ele o acendia. Nunca lhe perguntou qual era a qualidade. E tantas vezes que fora utilizada.
Deixou de saber gerir o tempo. Isolada de todas as memórias menos daquela, fechava os olhos e repetia que o "assunto" tinha de ser rapidamente arrumado, assim como "essas meias estão aí há cinco dias, não vês que tens de juntar os pares e arrumá-las, Inês?" que a mãe entoava com impaciência no tempo em que ainda morava com os pais.

4 comentários:

N R disse...

O texto está incrivel!

Joana M. disse...

Li-o duas vezes e das duas vezes gostei :)

Unknown disse...

http://www.youtube.com/watch?v=rQi8wEHMm5Y

Rita,
Está lindo! Obrigada por conseguires ser o meu melhor momento neste dia. Mando-te a musica que assim que vi o clip lembrei-me de ti. Bjs

Rita Silva Avelar disse...

Rita,
se me pedissem para fazer uma lista das minhas músicas favoritas/ as que até agora marcaram as alturas mais importantes da minha vida, o forever young dos alphaville estaria seguramente entre as primeiras cinco. A versão que me enviaste, dos youth group, descobri-a numa das temporadas dos the o.c, num momento entre o ryan e a marissa. É realmente muito bonita, tanto a letra como a música. Obrigada por te lembrares de mim ao ouvi-la. Bjs