É naquela esquina que ela se costuma sentar. E ele, de longe, encosta-se atrás de uma árvore grande e velha, e inclina o corpo para trás, para poder observar. Uma vez levou os binóculos do avô. Mas pelos olhares intolerantes que lhe perfuravam a nuca, achou melhor observar àquela distância, sem outros acessórios indiscretos. Há até um senhor que todas as terças-feiras, quando passa por ali, lhe sorri e desvia os olhos para o sitio onde ela normalmente está sentada a jogar às cartas com a Susana ou a beber coca-cola. Um dia o senhor disse-lhe: vai lá. Mas ele não foi, nem nunca irá, provavelmente. No entanto, estar ali debaixo da árvore todos os dias pelas cinco horas, é como se fosse uma espécie de obrigação, de necessidade, assim como tomar banho ou dormir. Uma vez levou o João, mas este, passados dez minutos disse: vou jogar à bola. E nesse dia ele acho que o João era o amigo mais insensível e sem coração que já alguma vez tivera. Foi pelo medo de se decepcionar outra vez que nunca mais convidou nenhum dos rapazes a ir ao "sítio". Nesse dia, passavam vinte minutos das cinco quando ela, enquanto se ria, passou o olhar pela árvore grande e velha e voltou a olhar, poisando a vista sobre ele. Ele ficou todo vermelho, e como era daqueles dias de Verão de 38 graus à sombra, começou a escorrer de suor. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi fugir. Mas depois, dez segundos depois, fechou os olhos, encostou-se à árvore e cerrando os punhos de vergonha, rezou para que não acontecesse nada. E não aconteceu. Quer dizer, na altura não. Mas ele deixou de ir ao sítio, desse dia em diante.
Ele esqueceu. Cresceu e esqueceu-se dela. De vez em quando a mémoria fazia um esboço rápido e incerto mas era como um flash de uma camera. Muitos anos depois, tinha acabado de se sentar numa das mil esplanadas da cidade, quando sentiu uma mão muito quente no ombro, que emanava um cheiro familiar e estranhamente simpático. "Podes passar-me os guardanapos, se fazes favor?" Nunca lhe tinha ouvido a voz, mas reconheceu-lhe as feições quando se virou. "Claro". E aquela troca de frases banais deu-lhe vontade de rir. Na voz dela corriam fios de amor quente, corriam todas as palavras não ditas, mortas, gastas pelo tempo, de tão presas na lingua de quem nunca soube de um amor tão ironicamente cansado. Cansado de nunca se ter cansado. Um amor que fez inveja a muitos outros amores clandestinos. Ele pediu uma cola, e ficou a vê-la a falar e a rir com outra mulher. Depois levantou-se e virou as costas, para nunca mais a ver.
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