25 de agosto de 2009

abismos

"despertou-a do feitiço uma negra feliz com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um triângulo de ananás espetado na ponta de uma faca de cortador. ela pegou-lhe, meteu-o inteiro na boca, saboreou-o e estava a saboreá-lo com o olhar errante pela multidão, quando uma emoção a paralisou naquele lugar. nas suas costas, tão perto da sua orelha que só ela a pôde escutar no tumulto, tinha ouvido a voz:
- este não é o lugar indicado para uma deusa coroada.
Ela virou a cabeça e viu, a dois palmos dos seus olhos, os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira entre a multidão da Missa do Galo da primeira vez que ele esteve tão perto dela, mas, ao contrário de então, não sentiu a emoção do amor mas o abismo do desencanto. num instante revelou-se-lhe a magnitude do seu próprio engano e perguntou-se, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta crueldade semelhante quimera no coração. Só conseguiu pensar: «Meu Deus! Pobre homem!» Florentino Ariza sorriu, tentou dizer qualquer coisa, tentou segui-la mas ela apagou-o da sua vida com um gesto de mão" (Gabriel García Márquez em "O amor em tempos de cólera")

1 comentário:

N R disse...

Garcia Marquez é um excelente escritor, têm excelentes imagens, mas, paramim, é uma pena não ter mais. Cansa-me um pouco andar centenas de páginas a ler explicações atrás de explicações.