hoje liguei-lhe, meu. estava sentado na sala a jogar ps2 quando dei por mim a chamar pelo nome dela. acho que achei que estava na cozinha a fazer as nossas tostas habituais de oregãos. quando, cinco segundos depois, a única coisa que me respondeu foi a máquina de lavar loiça, fui desligar aquela porcaria e ataquei o frigorífico para afogar a frustração. eram cinco da tarde e nem o luís nem o paulo nem mesmo o joão miguel responderam à minha proposta de lan party. fiquei para ai meia hora sentado naquele banquinho dos marroquinos sem saber o que fazer. quando dei por mim tinha bebido metade de uma garrafa de vodka e mais de uma dúzia de pacotes de batatas lays lisas, vazios, à minha volta. o relógio da sala deu as desesperadas sete horas (hora a que me propus ligar-lhe - sabes, aquelas cenas estúpidas que um gajo às vezes tem que fazer quase religiosamente), levantei-me para chegar ao telefone mas só consegui à terceira tentativa, pelo que as duas anteriores me valeram o jarro de porcelana da tia Josélia em estilhaços e um ombro dorido. não 'tás bem a ver. liguei, atendeu-me um puto com sotaque do norte. coitado, acusei-o de tudo, até que me convenceu de que não estava a ligar para o número certo. marquei o número, mais uma vez, e realmente lá apareceu o nome dela no ecrã. chamou, chamou...nada. praguejei tanto e tão alto que a Laurinda tocou à porta. perguntou-me se eu estava bem naquele tom maternal e ao mesmo tempo sexy, e eu respondi que sim, que estava óptimo, a chorar e a rir ao mesmo tempo. disse-me para me sentar no sofá, foi guardar a garrafa no frigorífico e trouxe um frize limão que dividiu em dois copos. depois foi buscar o cd da Edith Piaf e deixou o milord tocar pelo menos 3 vezes. sentou-se a falar das suas incontáveis lamentações a que eu em dias normais teria respondido com simpatia e de forma atenciosa mas que nessa tarde só consegui foi chorar mais. sabes que só te conto estas coisas a ti porque sei que não me vens com frases de compaixão e essas merdas. chorar também é de homem, bem sabes. a Laurinda foi deitar-me por volta das nove. deu-me um beijo na testa e disse-me que um dia ia ao meu casamento e que eu haveria de ser o homem mais feliz do mundo nesse dia. imagina tu, eu, casar...
eu telefonei-lhe e ela não atendeu. nem devolveu a chamada. nunca mais saberei onde ela está. porque, meu, ela não vai ligar, nem atender, tão certo como a viuvez da Laurinda ou como os táxis por baixo do meu prédio, a chegar, a abalar, a qualquer hora do dia.
para o andré.
2 comentários:
Olá, vim aqui parar porque o André do blog Memórias de um encalhado faz referência ao teu blog. E olha, que posso dizer? Juntem-se e escrevam um livro, sei lá... Gostei deste texto. E vou seguir-te.
fica o convite, quando quiseres...
http://diariodanossaausencia.blogpot.com
obrigado pela citaçao! gostei muito muito muito. mesmo muito! ;) xx
Enviar um comentário