16 de novembro de 2009

cimo

a minha tia-avó dizia que eu era pequena demais para a minha idade. eu ouvia as conversas de lareira, curiosa, e pensava que não gostava de ser pequena. nem nunca achei que fosse. não me lembro do tom da sua voz a dizer outra frase que não: "silvia, sobe!". a minha prima silvia gostava de sair inesperadamente pela porta de casa a correr. começava a descer toda a montanha e só parava lá em baixo. depois, a minha tia espreitava lá do cimo e gritava pelo nome dela até ficar sem voz - o que não demorava muito tempo - enquanto a malandra ficava a olhar as pedras a rebolar no leito do rio, pequenas e grandes, disformes e negras. depois, a tia chamava o luís das cabras e lá ia o coitado montanha abaixo, arrancar a minha prima do seu posto de sentinela. quando chegavam junto da casa, a tia agarráva-a pelos ombros e trancáva-a na dispensa durante quase uma hora e meia. eu via este espectáculo pela janela da sala, com o nariz colado ao vidro e de vez em quando desviava os olhos para o céu limpo, quase sempre azul claro, e pensava que gostava de ter a coragem da minha prima. não para descer ao riacho, mas para subir ao pessegueiro velho e escutar os pássaros ou avistar, quem sabe, um urso a rondar nas montanhas mais altas. nunca cheguei a fazê-lo.

1 comentário:

rod disse...

podemos continuar a subir ao pessegueiro. tudo bem que já não somos crianças, e muito menos existem pessegueiros ao virar da esquina nas grandes cidades.

mas existem outros tipos de "pessegueiros" na cidade, outros tipos de "montanhas" para vislumbrar ao longe

não é tarde para arriscarmos e fazermos o que gostamos. aliás, nunca é tarde demais :)