levanto-me cedo. descalça, percorro a casa até à cozinha e o café, o café sobre o pano cor-de-laranja, exactamente no sítio do costume, e uma fatia de pão torrado, uma fatia de pão torrado no prato branco gasto. há gente pela casa. como silenciosamente e vou tomar banho, qual princesa, na casa de banho do primeiro andar. tenho saudades do frio. no outono abro sempre a janela do quarto enquanto vou vestindo a roupa e vejo os pássaros atarefados à procura de ramos pequeninos, as folhas a cair sem parar, e cheiro a maresia que vem de oeste. a lena quando vem cá a casa nesses dias fica sempre a olhar para mim e diz-me que sou bizarra. e rimo-nos as duas da ironia do vento a assobiar lá fora, enquantos nos vestimos. mas hoje as janelas estão fechadas e há jazz a soar nos corredores. julgo que há gente pela casa. todos os meus "eus" se encontram pelos cantos da casa. há dias em que desço ao jardim e estico as pernas no baloiço que o avô construiu. olho para as rosas e não resisto a colher uma só para espalhar as pétalas pelo quarto, mais tarde, e inspirar-me para escrever. ridículo.
hoje estive todo o dia no telheiro, a ver o mar. adormeci um pouco e quando voltei a abrir os olhos fiquei espantada por não ver um barco no horizonte. um barco em que chegarias. fechei os olhos só um pouquinho só para te ver descer no pequeno cais empodrecido e perigoso, com duas malas às costas e um coração cheio de tudo e de nada. só pra mim.
levantei-me e encostei-me a uma das paredes do corredor a observar um dos quadros do meu pai. não há mais ninguém pela casa.
4 comentários:
Está lindo meu amor, mas lindo mesmo. ly@
Adoro a forma como escreves. Continua *
Sei que é uma pergunta pessoal, mas é ficção ou realidade, o que escreves?
Esquece, não aceites o comentário. Reparei no título ;P
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