10 de maio de 2010

sounds

entrei na sala com a sensação de quem sabe um segredo.
toda eu cheia de certeza de ter algo só meu, completamente preenchida de vida e de um mundo que não me pertence. roubei um mundo que não me pertence. há uma melodia na minha cabeça que se sobrepõe às vozes das outras pessoas antes do início do espéctaculo. o conforto de saber o que mais ninguém sabe faz-me sentir bem. esta sou no meu estado mais apreciado, mais confortável e familiar.
nunca aqui tinha entrado, mas sinto-me quente e em segurança. não conheço ninguém. há luzes vermelhas, fecho os olhos. o meu tango ninguém mo tira. alguém me toca no ombro sem querer e sinto uma onda de entusiasmo a percorrer-me o corpo.
vai começar. entro mais cheia do que saio. no fim saio quase vazia. isto não é meu, não me pertence. sinto-me pequena e inútil. ás vezes gostava de entrar nas salas e apreciar o início. o sentar, as vozes, o apagar das luzes, e sair. mas assim o ritual ficaria incompleto, e esta felicidade confortável seria como uma salada sem pitada de sal. os ingredientes são todos necessários para se criar o ambiente.
por segundos parece que este mundo que não é meu, se enquadra em toda a minha vida. depois, abro os olhos, escorregam-me todas as ilusões pelos dedos, e o espéctaculo começa. é o fim do processo: da melhor sensação em mim.

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