quando finalmente sinto o corpo a cair no fundo, a fazer um estrondo no fundo, penso em ti. lembro-me da sensação ao passar as mãos pelas uvas, de provar as uvas de morangueiro, de beber o vinho das pipas às escondidas, e de me ensinares os cantos da horta, como se fossem linhas das tuas mãos gastas e negras. já gastas as conheci, avô. o que mais gostava era quando te rias porque me enlameava. nunca houve limites. eu corria, e corria, tu a dizeres que não era para onde eu corria, e eu corria, corria, só para me ires buscar e dizeres que havia javalis atrás dos eucaliptos, que os buracos na terra eram onde os javalis enfiavam o focinho. então eu corria, corria e corria de volta pra casa, e tu: passo acelerado, respiração ofegante, levavas-me a ensacar batatas. o cheiro das batatas e da garagem, e do carrinho-de-mão ferrugento, avô. as tuas mãos a segurar o carrinho, e a dizer, está de noite, vamos acender o lume. e eu entrava logo em casa, sentava-me na cozinha, esperava que acendesses o lume no velho fogão e logo de seguida ia buscar um garfo, espetava um pedaço de pão e torrava-o. a manteiga, avô, a manteiga. tu ensinaste-me a barrar bolachas maria com manteiga e juntá-las. e gostavas. e eu fingia que não me enjoava à terceira bolacha só porque ficavas a olhar para mim, contente por me ver comer. o que comer que não tiveste, o avô que não tiveste. ainda me lembro do som da buzina da tua bicicleta, sempre com um cesto azul de plástico na parte de trás onde levavas o tuti fruti. não me recordo de que morreu, pobre cão. a avó chorava muito. agora não me poderás ouvir, nem ler a contar as nossas aventuras, talvez. queria acreditar que sim. hoje, ao cair no fundo e ouvir o baque, lembrei-me do som dos marmelos que tanto caiam no chão quando os tentávamos apanhar, sem nunca os conseguir salvar a todos da violenta queda pelo chão. senti-me um marmelo a cair violentamente, um fio de vinho insignificante a cair na garrafa que o mano ia encher, pequeno e entusiasmado; senti-me uma pequena uva esquecida na videira e, sobretudo, senti-me menina a fugir pelo campo e a ter medo, e a fugir, e a ter medo, e a reconciliar-me com o facto de estares ali, sem estares ali. ali sem estares ali, avô.
o jardim da nossa casa grande, a nossa casa de 100 anos, está poluído. o ar que se respira estragou tudo. não há as rosas brancas que eu adorava cheirar e tocar, como se nunca tivesse visto rosas, ria-me muito. riamos muito. avô, tiveste os maiores girassóis que alguma vez alguém viu. eram quatro metros, quatro metros e pouco. parecíamos, perto deles, tão insignificantes quanto somos. tiraste fotografias para os jornais, eu lembro-me. só alguém como tu avô, poderia. agora a horta seca, o jardim desvanece, e os dias morrem dentro das noites, e as noites dentro dos dias. o vento não corre ali, as plantações não crescem ali, há anos dentro de meses de morte no nosso jardim. em breve não haverá vinho, nem as pequenas margaridas que colhi para te levar. não haverá nada, e todas as coisas de tão insultadas e desrespeitadas que serão, permanecerão imóveis e indiferentes a isso. a calma, avô. os teus olhos aguados e a calma dentro dos teus olhos que agora habitam em mim e me envolvem de quietude e cheiro a romãs frescas, cuidadosamente descascadas por ti.
4 comentários:
Nunca percas este dom ritinha
ly @
podes crer que são!
que bonito ritinha. a sério, deu-me uma vontade de chorar... A minha avó ainda hoje me descasca romãs. Ainda que conscientes da finitude das coisas, continuamos a pensar que tudo vai durar para sempre.
só assim poderemos prosseguir com tudo na nossa vida, martinha. acreditar que o dia de amanhã vai existir e, sobretudo, ser melhor que o de hoje. *
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