le soleil est près de moi.
vou descendo as escadas devagar e cada degrau é uma memória. o tempo sabe a pouco, as letras desenleiam-se facilmente, as músicas caem-me no colo como laranjas do meu quintal. tudo se tornou vulgar, como uma experiência batida, um livro estragado de ter passado por tantas mãos, uma melodia familiar, ou take 2. já nada é genuíno e já nada acontece porque não pensámos antes que iria acontecer. já desci mil vezes estas escadas mas hoje os teus fantasmas perseguem-me como folhas de outono secas e pisadas.
le solei est près de moi.
se fechar os olhos vejo um negro florescente onde passam imagens a preto e branco. lembro-me de pormenores que achava que tinha esquecido, e penso se não haverá muita coisa importante que esqueci e não voltarei a lembrar. os pins e a aragem do quintal, as flores de nomes estranhos e a janela cheia de buracos. não me lembro de cores ou objectos em particular. não me lembro da primeira nem da última palavra, ou frase.
le soleil est près de moi.
oh, inocência, oh ignorância feliz. aprendizagens naturais e primordiais. tudo da terra, tudo um mito. tudo como se não tivesse existido. numa memória como lembramos o tempo dos reis, revejo as formas das mãos e o desenho da íris. lembro-me de uma blusa às riscas e de um perfume extasiante. desço as escadas e o sol está à minha frente, brilho inútil que tenta apagar os meus passos e as tuas sombras pela calçada, cuidadosamente evitando as folhas.
le soleil est près de moi.
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