todos querem catalogar todos. tudo pretende catalogar tudo. querem arrumar-nos quais prateleiras de supermercado.
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estou de passagem. ofensas e critícas trabalhosamente elaboradas para soar o pior possível passam fora da minha zona. nunca apreciei comentários negativos ou descargas de energia em depósitos errados. todos acham que podem dizer o que querem, quando querem, porque querem, onde querem, a quem querem achando que um dia o peso da pedra de sisyphus não vai custar. observo. e agora a história.
ultimamente inspiras em qualquer rua e o cheiro toca-te na ponta do nariz. entra devagar, o sistema nervoso liga o on e automaticamente arrepias-te. tentas descobrir se é possível imaginar cheiros e senti-los simultaneamente, e é realmente interessante a expressão da tua cara: narinas dilatas, olhar franzido, lábios apertados. inspiras vezes seguidas, como se estivesses à procura de alguém. do cheiro de alguém, na verdade. de repente suspendes o ar qual exercício de ioga e escutas, como se realmente se fosse ouvir a voz de alguém. desistes. desdobras-te em mil eus e procuras respostas em todos eles. nunca mais queres ouvir o nome desse alguém - convences-te de que vais esquecer. depois sentes saudades dos pormenores que enchiam os dias, os teus lábios esticam num sorriso. não queres saber, nem pensar, de repente. ofendes-te múltiplas vezes, de múltiplas formas. agora, observando a tua forma de subir e descer esse degrau sei que não vais olhar para trás muitas mais vezes. se passas na rua e sentes o cheiro ficas-te pelo sentir porque no passo seguinte ele já não está lá. as coisas que pensas podiam encher mil vidas de silêncio e infindáveis escuros na noite. as coisas que pensas não fazem grande sentido, mas és feliz porque és tu. és assim e assim te aceitas. venham todos os aromas do mundo, todos os gestos fatais, todas as palavras assassinas, todas as vozes traiçoeiras, porque já te caiu o mundo em cima e tudo o que vier cai num vácuo que não te pertence mais, mas que vive contigo. habituaste-te a deixar essa quantidade imensa invadir o espaço não-espaço. a poeira não te incomoda, muito menos o estardalhaço.
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a vida é a ilusão de que todas as coisas nos pertencem se quisermos, se estalarmos os dedos. na base de tudo aquilo que construirmos está a dignidade e sem ela todas as metas serão inúteis, a longo ou a curto prazo.
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