26 de janeiro de 2011

anda a monte

entras no café.
fecho os olhos e já passaste a porta: estás ao balcão.
chamas à atenção pela boina verde e camisa castanha aos quadrados.
pedes uma aguardente, desce-te pela garganta e nem pestanejas. olhas em redor com ar de desinteresse, pico do charme estremecedor que guardas, e voltas ao ponto fixo do balcão das bebidas como se houvesse mais para ver do que as garrafas de vinho e os copos virados ao contrário.
como se ali estivesse um mundo e estivessem a passar mil esboços na tua cabeça, e até pensamentos complexos.
a possibilidade fica em aberto.
é esse um dos teus enigmatismos.
suponho que não pensas em nada mas, se pensasses, no que seria?
pareces expressar um sorriso mas é só impressão.
a tua metafísica uniformiza-te as feições.
desvio um pouco o olhar de ti para observar os velhotes que jogam às cartas.
de repente viraste para a porta como se me esperasses. como se soubesses que escrevo sobre ti, que te vejo e que sei do alcóol que te percorre a garganta.
eu vejo-te, oiço-te e cheiro o teu perfume. sei exactamente como estás sentado e ao mínimo gesto o meu olhar é atento.
intimida-me saber o tanto que conheces.
nunca poderia tocar-te: é esta utopia que serve a admiração.
deixarias de ser tu? provavelmente.
é esse o teste incontornável desta sina, é essa a prova das provas que te rouba à metafísica.
onde estás?

4 comentários:

sara correia disse...

estou aqui rita, sempre de boca aberta á espera de comida

alekszandra disse...

a cada dia melhoras mais, parabéns e espero sempre ter o prazer de continuar a ler as tuas palavras. :)

Rita Silva Avelar disse...

só por isso amanhã ficas a pão e água (da torneira)

Rita Silva Avelar disse...

obrigada alekszandra :)