8 de janeiro de 2011

metamorfose

a vida é como uma teia de aranha. vamos construindo a nossa linha de vida e acabamos presos nela.


hoje gostava de construir o meu dia de outra forma.
hoje gostava de voltar ao passado, data a data, momento a momento e lembrar-me.
do cheiro de uma almofada, de um concerto mais sentimental, de um dia bem passado.
hoje gostava de voltar a espanha, aos dias a ouvir caetano pela primeira vez, à primeira página do amor de perdição.
hoje gostava de reescrever o meu primeiro poema, de sentir a força de um primeiro abraço de alguém, de estar cara a cara com o desconhecido e adivinhar o que viria,
de não saber nada disto para recomeçar e saber tudo isto para me proteger.
hoje eu queria todos os bocadinhos em que fui feliz, juntá-los e apertá-los bem contra o peito, dormir ao lume e não mais esquecer-me de quem fui.
hoje não quero ser a metamorfose ambulante do raul seixas.
hoje eu quero lembrar-me do dia em que me viciei em chá, em citações e em pacotes de açúcar.
hoje eu quero parar de pensar mas pareço um processador imparável.
hoje eu tenho as cartas na mesa e não quero escolher nenhuma, quero recuperar as que perdi.
hoje eu quero fazer a coisa certa, ser a pessoa certa, fechar a porta ao inimigo.
hoje eu quero ser eu sem químicos.
hoje não quero usar maquilhagem, encher-me de perfume e calçar uns saltos.
hoje eu quero correr descalça pela praia, livre. quero fechar os olhos, deitar-me na areia e respirar o cheiro da maresia.
hoje quero guardar essa lembrança e chorar de saudade.
hoje eu não quero gin tónico.
hoje preciso dos meus avôs e as conversas confortáveis.
hoje preciso que me deixem em paz, que não me digam nada, que não façam jogos, que não gritem, que não enganem, que não persuadam, que não seduzam, que não me toquem, que não partam a loiça toda: hoje quero silêncio.
hoje quero nostalgia e quero explicar-te a nostalgia. quero que me peças que abra o dicionário e procure nostalgia.
hoje pergunta-me coisas. pergunta-me.

1 comentário:

Limaz disse...

será que um dia me voltar à apaixonar? a encontrar aquela pessoa que me preenche? ou será que tenho razão quando digo que o amor, leva à loucura assim como a solidão? ..