28 de fevereiro de 2011

um lado da moeda

eu tento distrair-me.
abro um livro e leio mais um pouco da história: cedo me canso.
estou cansada da vida dos outros dar certo, e de ser a metamorfose ambulante.
olho pela janela do quarto e numa onda alberto caeiro gostava de sentir tudo e que tudo bastasse, gostava de acreditar que pensar é não compreender. gostava de não pensar de todo. então olho o céu e sinto-me bem por instantes, aquela imensidão azul a cobrir o nosso mais alto tecto.
eu tento fingir que não és o meu dia. que não és todo o meu dia. ás vezes tenho sorte quando não estou rodeada de coisas que me lembram de ti. encho os dias com palavras, com conversas, com coisas, coisas, e mais COISAS para te desertar. tu és os monstros debaixo da minha cama.
eu entristeço-me com uma música. não quero dar-te músicas, porque o mais triste do mundo é darmos músicas a alguém e esse alguém dar a outra pessoa, e o nosso alguém se esquecer de que a música nos pertencia. ali não fizemos história, não deixámos rasto e a música perdeu-se.
eu sei que passou mais um inverno. as folhas cairam, a chuva também, e fomos com tudo o que caiu. somos as folhas molhadas no chão e eu sinto as pisadelas das pessoas. sinto uma dor a pressionar-me o peito. está frio, e não sei que te diga. as palavras já não me valem de nada. as palavras são inúteis, estes textos são inúteis.

passa o dia e adormeço sobre nós. acordo sobre nós. jogo fora o pensamento como quem se despede de uma vez. mas são tantos os adeus.

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