estou exausta. todo o meu corpo estremece de frio. é como se pairasse num vazio, sem barreiras, como se estivesse desligado do mundo material.
antigamente a verdade tinha uma essência diferente. as coisas em si emanavam liberdade, as flores não tinham as mãos malvadas das crianças a destruí-las, porque as flores eram preciosidades, e porque as crianças eram pobres.
hoje, presente do mais presente, sinto-me num tempo errado. este presente não me pertence, eu não serei do futuro. sinto-me de um passado que existe nas paisagens dos livros que li, nos amores dos filmes que vi, numa sinceridade que ouvi nas músicas. estou exausta, e ninguém parece entender que há um momento em que é suficiente.
ninguém conhece a lenda de sisyphus. talvez pudessem entender o valor da dignidade. a minha mãe sempre diz que é bom dar - e dar engloba não só bens mas também afectos - porque o bem acaba por vir ao nosso encontro mais tarde ou mais cedo. não acredito em muita coisa, mas nisso acredito. por isso vamos carregando a pedra até ao cimo da montanha, pacientemente, e um dia tudo encaixará. talvez.
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