22 de outubro de 2008

L 'artiste de France (Parte I)

Há seis meses e dezoito dias que a luz matinal entrava pela janela grande do quarto de forma graciosa e leve, e lhe tocava no corpo coberto ou semi-coberto com um simples lençol branco. Daria uma boa fotografia. Nos dias cinzentos, havia uma ausência que acentuava a ausência natural do quarto. A luz atravessava quase todo o espaço até chegar à cama, fazia mesmo parte do ambiente como todas as outras coisas presentes ali. Todas as paredes cheias de cartazes, quadros, borrões de cor; pincéis e guaches no chão e em cima dos móveis; roupa à beira da cama, roupa nas cadeiras, roupa na mesinha de cabeceira, roupa na casa de banho. E borrões de tinta, por todo o lado. Ao fundo do grande quarto uma gaveta aberta com cartas, uma endereçadas para Maria, outras para Marie. E o mais importante, simples e por isso importante, uma pequena parcela de parede sem nada, apenas branca.
Ao passar perto do prédio da Rue de La Liberté, ninguém imaginaria que no 2º esquerdo vivia toda aquela confusão de cores, roupas, desassosego, bagunça, aquele ambiente meio místico, porém solitário.
Eram 10h quando acordou. A luz suave, batia-lhe já pelas pernas. Estava destapada, e acordou devido ao frio. "Raios, estou atrasada!"
Correu a tomar duche, lavou os dentes, pegou no par de calças penduradas na cadeira e na blusa que tirou atabalhoadamente da gaveta desarrumada, o casaco pelas costas, meteu uns quantos quadros debaixo do braço e uma capa gasta, a mala, e finalmente as chaves de casa. Pelas 10h15 corria pela avenida. Não podia chegar atrasada, tinha a sua primeira entrevista de emprego. 10h30 certas, estava à porta do edifício. Enfim, esperou cerca de meia hora e meio nervosa meio a dormir ainda, acabou por entrar.
Instantâneamente começou a falar de si, mostrou o currículo, explicou encurtadamente o seu percurso para ali chegar, acenou que sim e que não infinitas vezes, explicou e explicou que precisava de emprego e que era a pessoa certa, tudo naquela língua - o francês - um tanto romântica e bela por natureza. Rezou pelo melhor. Era uma artista, e um dia os seus quadros seriam famosos, pensava desde pequena. Desde criança que o seu talento para o desenho e a criação de coisas abstractas se havia notado, nos mais pequenos pormenores. Nunca quis ser outra coisa. Agora, toda a sua luta contínua dependia destas preciosas entrevistas.
O seu dia fez-se normal, quer dizer, quase normal.

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