23 de outubro de 2008

L 'artiste de France (Parte II)

Com o cavalete debaixo dos braços, os pincéis, as tintas e a imaginação, saiu de casa e percorreu o caminho até ao Square Laurent Prache que, para além de ser perto do prédio, era um local que lhe despertava especial atenção, pela sua beleza, misteriosidade e diversidade de elementos. Era terça-feira, estava pouca gente no local. Escolheu um local do seu agrado, que a inspirasse e lhe trouxesse ideias como o vento trazia as folhas que varriam o jardim. Costumava levar também alguns dos seus quadros para, obviamente, vender. A preço médio, quase sempre vendia um ou outro quadro e as pessoas já a conheciam por este ritual, sem contar com os estrangeiros, turistas ou pessoas de passagem. No seu país - Portugal - as pessoas eram diferentes. Nem melhores, nem piores, apenas diferentes. Era para lá que ía passar o fim-de-semana, ver a família e os amigos, seria então a Maria por uns dias. Estava particularmente bem disposta, e isso era uns dos elementos chave da sua produção. Deu um salto ao Pain de Lait e trouxe o habitual sumo de ananás acompanhado de uma fatia de bolo.
Eram cerca de 18h30 quando Marie o viu pela primeira vez. Caminhava apressado, tão apressado que derrubou um dos apoios de guaches que se espalhou por cima da calçada, das calças do desconhecido, dos ténis. Dignou-se a parar e disse "Pardon..." de forma preocupada. A sua voz é que estragou tudo, e os seus olhos, e os seus lábios, e o seu ar de atarefado, e as suas mãos. Sim, as suas mãos. Aparentava os seus 25 anos, um pouco mais, um pouco menos. Estava assim, perto da idade dela de certeza.
Meia hora depois estavam sentados no Pain de Lait. Marie já não sabe onde, mas lembra-se de ter ouvido dizer que voltar ao mesmo sítio duas vezes é sinal de mau presságio. Ainda bem que não é preconceitosa. Pierre, o desastroso desconhecido, já tinha explicado o motivo da pressa e também já o tinha chegado ao lado. Tomaram café, e entraram numa conversa cordial, interessante. Trocaram as suas vidas, os seus sonhos, as suas palavras, os seus problemas, no banco do jardim até anoitecer. Pierre trabalhava em psicologia, mais exactamente num ramo de psicologia clínica, daí os seus cuidados com a linguagem, a sua delicadeza nas palavras, o seu fluente e brilhante francês.

2 comentários:

N R disse...

Está muito bom, excelentes descrições.

Rita Silva Avelar disse...

ainda não acabou. Obrigada, :)