Pierre acompanhou a recém conhecida até casa. Subiram. Marie, tira calmamente a chave de casa do bolso, e mais uma vez empurra com força e de uma forma característica a porta velha e empenada do quarto. Este gesto repete-se todos os dias. O desconhecido assiste divertido a esta acção, e faz um ar de surpresa ao entrar no caricato quarto. Ela porém, cora de vergonha e balbucia algo como "C'est un peu de désordre..." Mal acaba de dizer isto, ouve-se um "trrrim, trrrim..." bastante sonoro. Pierre atende o telefone e depois de vagas e apressadas palavras, sai porta fora. Ainda das escadas diz, "c'est une situation d'urgence, perdon. À la fin de semaine une fois de plus nous voir, Marie!" Estupefacta, só tem tempo de abrir a janela, e gritar: "Espera, no fim-de-semana já não estou cá!" Ele não ouve. Desaparece na escuridão num ápice, como os bandidos desaparecem do local do crime, sem deixar pistas nem rasto. E levam sempre alguma coisa, como Pierre também lhe levou a ela. Deixou-se cair em cima da cama, como um peso morto. Sussurrou ainda algo como "Pierre... e agora?", antes de adormecer.
Pela manhã, acordou com sobressalto, ainda vestida. Fixou-se na parede branca onde costumava ir buscar a imaginação, agarrou com força a almofada, olhou o quarto cheio e vazio ao mesmo tempo. Olhou a ausência de amor nos cantos do quarto, sentiu-a debaixo da cama, na mesinha de cabeçeira, na frincha da porta, no buraco debaixo do móvel da entrada, nos borrões dos quadros estranhos e artísticos, nas roupas enxovalhadas, nas páginas de um livro abandonado no chão, por todo o quarto. Olhou para dentro de si e sentiu-se vazia e insegura. Não tinha certezas do seu trabalho, nem se voltaria a ver o simpático francês, Pierre. A sua única certeza era a luz matinal, familiar e subtil que todos os dias lhe enchia um pouco o coração de esperança.
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1 comentário:
A história está a ir muito bem.
Obrigado, o teu blogue está mesmo muito interessante, vou colacá-lo também nos que vejo.
:D
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