15 de outubro de 2008

O pub de Chicago


Edward Hopper foi um pintor realista realmente muito bom. A primeira vez que vi quadros seus, achei-os tipicamente americanos. Eu sabia que eram. E o senhor foi mesmo americano, e as suas pinturas são nitidamente características ou costumes (assim lhe chamemos) da América. Este quadro chama-se "Nighthawks", ou seja aves da noite ou aves nocturnas, e vou falar sobre ele porque foi o primeiro que alguém amigo me mostrou, já há algum tempo.
Tudo me chama à atenção nesta pintura, por ser um pub. De nome Phillies. A sensação que eu tenho é que as personagens estão silenciosas, cansadas talvez, como se tivessem passado por algo que finalmente acabou, e que têm por fim tempo para ir afogando as mágoas numa bebida daquelas quentes e fortes. O senhor que está isolado é o que encaixa mais nesta descrição. O casal - se é que são um casal - parecem personagens daqueles filmes em que o homem tenta enrolar a mulher com frases melancolico-românticas de um desconhecido, sempre a baloiçar entre o perigo, a sorte e a paixão repentina, que acaba sempre num sim ou num não. Ou vice-versa. Também pode ser a mulher. Quanto ao barman, é o observador do momento. Só ele sabe, sabe aquilo que não sabemos e demonstra também que o sentimento dominante aqui, no pub, é a solidão. No fundo, todos eles estão sós, de uma forma directa ou indirecta. Porque o que esta imagem transmite é o desgaste de algo que ficou guardado para a noite. Tudo foi já vivido, agora só resta o silêncio. A melancolia e o silêncio.

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