14 de outubro de 2008

Tenho saudades de ir ao cinema

Estou sentada numa cadeira de cinema. Fila E, cadeira 4. O filme até nem é nada de especial, mais um dos realizadores que quer mostrar demasiadas coisas ao mesmo tempo e incumbir lições difíceis de interpretar, quando acaba por não mostrar nenhuma em especial que nos fique. Há duas senhoras de idade na fila C a tagarelar sobre se deviam ter ficado mais atrás e se o som do filme não deveria estar mais baixo. Umas quantas filas atrás de mim estão 4 ou 5 ingleses mais uma mulher chinesa que de vez em quando solta exclamações despropositadas. Poucas mais pessoas estão no cinema, creio que é por isso que aprecio vir ao Domingo. Gosto muito de ir sozinha ao cinema, dá-me um certo sabor de liberdade e autonomia, o escuro, a sala grande de cinema e o gigantesco ecrã. E assim, sem ser nos filmes de comédia, sempre posso envolver-me numa certa melancolia que até aprecio. Depois de me debater com a primeira parte do filme, lá entrei na acção. Passou-se para o intervalo, uma pastilha de menta. Fim do intervalo. A segunda parte do filme até é mais interessante. Até que… o cheiro a cinema que habitualmente conheço é sobreposto por um perfume. Não me é desconhecido e mal me entra pelas narinas, inspiro vezes sem conta para poder sentir melhor. Não consigo entender de onde vem, porque curiosamente não vem de parte alguma, está só em torno de mim mesma. Deixo de me concentrar no filme, concentro-me na essência. Sabe tão bem a sensação que me envolve calorosamente que deixo cair a cabeça para trás e fecho os olhos lentamente. Desfruto do ar que inspiro. Dou por mim no silêncio. Profundo. Acordo com a voz de uma das senhoras tagarelas da frente. "Menina, o filme já acabou." Recomponho-me, ainda com uma sensação estranha, passam flashes pela minha cabeça que não me lembro bem com que estavam relacionados. Talvez, memórias. Tento encontrar de novo o perfume inspirando em minha volta, mas tinha desaparecido. Levanto-me ainda com os sentimentos a fervilhar, saio porta fora chateada por ter perdido o filme e o sono. Nem eu sei porque adormeci, nem com o que sonhei. Mas pareceu-me familiar, sim pareceu-me familiar.

(06-09-08)

5 comentários:

Koky disse...

Eu não costumo ir ao cinema, acho muito caro...

José Fernando Magalhães disse...

Muitos parabéns Rita. Um texto muitíssimo bem escrito.
Quase me senti na sala, numa sala de há alguns anos atrás, na altura em que só, muito só, e às vezes também sozinho na sala, ia ao cinema à sessão da hora do almoço.
Raramente via o filme do príncipio ao fim, e às vezes sentia-me livre e vogava no escuro fazendo parte da sala, das imagens e também de uma vida que não era a minha. A minha "angustia existencial", era na altura parte do meu eu, e eu até gostava de me sentir assim, só!

Um abraço

JM

Gonçalo disse...

Adoro mesmo este texto! xD

Anónimo disse...

Mas que bonito e inspirado! Também gosto imenso de ir sozinha ao cinema - dependendo o filme, evidentemente - e todos me acham estranha por isso (entre muitíssimas outras coisas =P). Ainda bem que não estou sozinha neste departamento.

Catarina disse...

Também já tenho saudades daquelas noites em que jantava mais cedo para chegar cedo ao cinema, saudades de ver um filme daqueles que nos marquem!
Infelizmente o tempo tem sido bastante pouco, sexta tenho sempre ocupações tal como tu e sábado também... Vida de musico é assim :)