12 de novembro de 2008

Tranquila

Não há muito tempo pensava que esperia por ti, que tu esperarias por mim. Sem palavras, sem sinais. Não precisariamos, passariam os anos, os momentos mais importantes, mas sobreviveriamos... Sem ti, contigo - sobreviveria. Agora sei que te "vi" pela última vez, uma vez que tudo já passou, passou, passou.
Pensava em ti, nos teus caracóis, nos momentos de garganta seca, na agonia de não "saber", na distância entre as tuas mãos e as minhas, nas faces coradas e quentes, nos meus olhos: teus olhos, e isto e aquilo e...
Agora sei que nunca mais, e repito para mim "nunca mais" sem inventar palavras bonitas nem realidades falsas nem tão pouco silêncios entendidos entre nós. Agora já não há nada. As velas arderam até ao fim, até ao fim, até ao fim.
Não há muito tempo a minha vida era uma folha cheia de riscos uns por cima dos outros, sem forma, sem jeito, sem certezas. Quando te olhei nos olhos os meus já lá não estavam, as tuas mãos não me pediam para agarrar as tuas, senti acima de tudo tranquilidade no coração, e a minha folha já não foi, nem é um rascunho, é uma folha branca, branca, branca.

Fotografia: Edward Hopper

2 comentários:

N R disse...

Eu deveria reler infinitamente todo este texto e decorá-lo mentalmente, até que todas as letras, todas as palavras, todas frases me fizessem companhia para todo o sempre, sendo me impossível esquecer (e como me culparia se tal pecado acontecesse) este belo texto.
Muitos parabéns. :)

José Fernando Magalhães disse...

Cm é hábito, muito bem escrito. Sentimentos que se sentem na leitura das palavras.
Muito bem

JM