7 de novembro de 2008

sem medo

"Sei que também eles foram crianças a correr sem medo. Foram rapazes e acreditaram. Noutros lugares, o tempo parou também para eles quando os seus lábios tocaram lábios. Em todo o mundo, em praças, escadas, túneis, pontes, o gesto simples dos lábios que se aproximam, pele que começa a tocar-se no limiar dos seus contornos, que se junta, lenta e absolutamente, e que fica, pele de encontro a pele, lábios lábios; em todo o mundo, debaixo de muitas árvores tão diferentes, sob o toque de muitos sinos, nas margens dos rios grandes e pequenos, madeixas de cabelo que tocam a face, a força de um rosto sentida por outro rosto, o sabor; em todo o mundo, pessoas de todos os tamanhos e de todas as raças, casas de madeira e de pedra, jardins, o peso morno das pálpebras sobre os olhos, a respiração a tocar a pele, lábios lábios, manhã ou tarde ou noite ou agora, campos, cidades, pessoas, duas pessoas, o mundo todo parado para duas pessoas em todo o mundo."

José Luís Peixoto, "Cemitério de Pianos"

Fotografia: João Sargo

2 comentários:

N R disse...

O "momento"...e talvez o mais único onde somos realmente mais que nós, se este for verdadeiramente sentido.

Anónimo disse...

Estou a ler este livro. Passei hoje por esta página e postei no meu blog este texto. Passa por lá...