25 de junho de 2008

Uns demais, outros de menos


Com cerca de 20 anos, faces rosadas, maquilhagem esborratada, silhueta simples (logo, bonita), cabelo castanho e com madeixas cor de caramelo quase sumidas, mas visíveis, ela corria pelas ruas pequenas da cidade, sob as luzes amareladas que iluminavam a calçada e faziam sobressair as sombras das casas. Chovia e trovejava. Há muito que ela desejava fazer aquilo, pois era aquele o panorama que imaginava como a melhor descrição de liberdade. . e sentia-se tremendamente triste e infeliz. A vida parecia ser tão injusta, com ela. Então correu, correu até ficar cansada. Podia ser que assim a melancolia a deixasse de vez. A cada passo que dava sentia que ia ficando mais "leve" mas que a sua vida era a maior desgraça que o mundo havia conhecido. Estava um caos. Perdida em pensamentos negros, continuava a correr.Até que parou numa esquina mais iluminada, para descansar.Em vez disso, deparou-se com uma criança dos seus 7/8 anos, descalça, casaco cheio de nódoas e calças esburacadas; e o coração começou a acelerar em vez de diminuir os rápidos batimentos. Após ter, mais ou menos, digerido a cena, perguntou:

"Que fazes tão sozinho? - disse a meia voz - Os teus pais?"
"Não sei dos meus pais há muito. Vivo com a Sra.Ana, além - aponta o pequeno, muito acanhado, para uma casa sem porta, com uma janela partida, aspecto sujo e telhas caidas em volta.
"Ali?" - Perguntou incrédula.
"Sim, mas a Sra.Ana hoje não apareceu ao fim da tarde. E eu fiquei aqui, não sabia para onde ir.Dói-me muito a barriga, só comi um iogurte que achei perto do contentor da rua do restaurante. Eu e a Sra.Ana costumamos ir lá quando ela não tem "sorte" no trabalho." -respondeu o rapaz com voz tímida.
"Sozinho!? - exclamou com os olhos bem abertos - Que idade tens, pequeno?"
"Estes" - E abriu uma mão acompanhada de dois pequenos e sujos dedos.
"Com a tua idade brincava com todos os meninos do bairro, e tinha sempre toda a gente em minha volta".
"Os meninos do bairro de trás dizem que eu não posso brincar com eles, porque não tenho bola, e porque não tomo muitas vezes banho, como eles fazem." - a sua expressão passa ligeiramente de timida para triste e receosa - "Tu também não tomas banho, é?"

Esta pergunta deixou-a a pensar; o pequeno achava estranho o facto de ela estar a falar com ele. Talvez nunca tivesse conhecido a palavra carinho, nem a palavra amigo, nem muito menos a palavra família. Já com a lágrimas a escorregar pelas faces rosadas, a jovem oferece a sua mão ao rapazote e, sem saber muito bem o que o fazer, leva-o para comer qualquer coisa, a fim de saciar a fome do infeliz, enquanto ele a olha com deslumbramento e transparente alegria.

É realmente lamentável isto não passar de um simples texto. A própria palavra "pobreza" me deixa sempre um sabor estranho na boca quando a pronuncio. Ou será mesmo no coração?E o conceito de tristeza? talvez o conceito de tristeza seja muito mais abrangente do que pensamos, do que podemos entender na nossa "pacata" vidinha, não? Muitas vezes um capricho nosso, é um grande pedaço de felicidade para alguém; um lugar a salvo; um sorriso de contentamento; um acolher humilde e carinhoso; principalmente um brilho de esperança, nos olhos de uma criança que nunca conheceu o amor.Uns demais, outros de menos.

Fotografia : Alfredo da Cunha
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