
Era uma noite de Verão daquelas em que até a lua parecia um elemento cénico importante no cenário da madrugada. Estava um frio absolutamente familiar a Setembro, aquele frio da madrugada inconfundível, apenas e só apenas pertencente a Setembro. Havia gente na rua, 85% jovens com uns copitos a mais, talvez 10% de idosos perdidos de solidão ou tristeza no olhar, e 5% ou menos de jovens tontas como eu. Eu só pensava, «estou consciente, perfeitamente consciente» e isso provocava-me ânsia, medo, e entusiasmo.
As luzes da vila estavam mais intensas perto da variante, que se via perfeitamente do telhado. A música, o barulho das bebedeiras, o som do relógio da igreja, os pássaros inquietos, e a batalha interior que decorria em mim, tudo isso me embriagou de certo modo e deixei a consciência do outro lado da porta. Depois habitou em mim o aconchego nada adequado ao meu acto, a rebeldia e a felicidade. E por aí a fora as noites de Setembro… mas nem todas. E nenhuma foi igual àquela, que está bem e demasiado aconchegada na minha memória e no meu corpo para ser, alguma vez na vida, demolida de lá. Sei que vou sentir a reviravolta no estômago quando entrar pelas noites perigosas de Setembro a dentro, porque já estou a senti-la antecipadamente.
Por que é que não consigo evitar falar do passado, raios?
1 comentário:
Porque nós somos todos os nossos passados. Porque aquilo que vivemos faz parte de nós e não pode ser apagado. Apenas não podes deixar que o teu passado impeça o teu futuro de acontecer. Pensa em todas as noites que te faltam viver.
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